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Violência, bullying e repercussões na saúde são os temas de um estudo pioneiro coordenado pela Prof. Maria Fernanda T. Peres, do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, com o objetivo de estimar a prevalência da vitimização e da perpetração de bullying e outras violências e seus fatores associados. Trata-se do Projeto São Paulo para o Desenvolvimento Social de Crianças e Adolescentes (SP-PROSO), nome derivado do Z-PROSO e do M-PROSO, desenvolvidos nas cidades de Zurique, na Suíça, e Montevidéu, no Uruguai, respectivamente.

O desenho do SP-PROSO foi pensado de modo a permitir comparações com os resultados das pesquisas de outras cidades, o que ainda não havia sido feito no Brasil para estudos dessa temática.  “É a primeira vez que um projeto no Brasil, com uma amostra representativa e grande de adolescentes, explora uma série de fatores de risco que já são bem conhecidos na literatura internacional e reconhecidos como importantes para o entendimento de mecanismos associados à violência”, afirma a Prof. Maria Fernanda.

A coleta de campo, finalizada em 2017, compreendeu uma amostra de 2700 adolescentes do 9º ano do Ensino Médio feito em 119 escolas públicas e privadas do município de São Paulo. Foram utilizados os mesmos instrumentos aplicados nas cidades de Zurique e Montevideo. Os resultados, detalhados no site do projeto, serão submetidos a diversas publicações científicas, entre elas, Social Science & Medicine, Journal of Adolescent Health e Journal of Interpersonal Violence, entre outras

A percepção dos adolescentes dos estilos e práticas parentais, sua participação em grupos de pares delinquentes, hábitos de lazer ou envolvimentos em atividades transgressoras, além de elementos psicossociais como capacidade de autocontrole, estratégias violentas ou não violentas de resolução de conflito,   neutralização moral, capacidade de auto-controle,valores e normas relacionados ao uso da violência e aceitação ou não de violência contra mulher - são alguns dos fatores de risco investigados.

O estudo revelou que o total de adolescentes envolvidos em bullying, seja sofrendo ou praticando, soma 33,6%. A maior parte foi vitima de bullying (28,7%) e 16,3% foram perpetradores. A prevalência de vitimização por bullying foi de 30,7% entre as meninas e 26,7% entre os meninos.

Os tipos de bullying que mais vitimizam são as práticas de riso, sarro ou ofensas (17,5%), seguido de atos envolvendo objetos escondidos, pegos ou destruídos (11,5%), ostracismo ou exclusão (9,7%), assédio sexual (6%) e surra, mordida, puxão de cabelo (3,7%).

 “São fatores passíveis de intervenção. Acredito que o grande potencial do estudo é explorar, no contexto brasileiro, questões comuns a outros lugares e poder propor modelos semelhantes de intervenção, claro, guardadas as diferenças locais e culturais”, afirma.

Curiosamente, a vitimização por bullying não tem diferenças significativas, se considerados os marcadores sociais de raça/cor, já que 28,8% de brancos e 28,6% de não brancos estiveram envolvidos em bullying, seja recebendo ou praticando, o que demanda mais investigações, segundo a pesquisadora. “É possível que uma diferença na vitimização associada à raça/cor apareça se considerarmos a composição racial dentro das escolas, o que ainda não foi feito”, segundo a professora.

Porém, chama a atenção a vitimização de bullying entre homossexuais (42,1%, contra 27,2% de não homossexuais), deficientes (39,7%, contra 25,4% sem deficiência) e obesos (31,5%, contra 28,1% sem obesidade). A variável obesidade tem maior importância na vitimização de bullying entre as meninas (32,3%), comparado aos meninos obesos (21%).

O envolvimento em violência, seja perpetrando ou sendo vítima, mostrou uma prevalência de 35,4% no universo pesquisado. A maior parte foi vitima de violência (22,8%) e 19,4% foram perpetradores. A prevalência de vitimização por violência foi de 22% entre as meninas e 23,5% entre os meninos. Já a perpetração foi encontrada entre 22,9% dos meninos e 14,9% das meninas.

Os tipos praticados foram violência física (12,7%), porte de arma (7,8%), roubo com violência (1,7%) e violência sexual (1,1%). Entre as vítimas, os principais tipos sofridos foram roubo com violência (15,3%), violência física sem arma (7,6%), violência física com arma (5,5%) e violência sexual (1,7%).

O fato de meninas, homossexuais e deficientes serem as principais vítimas de bullying chama a atenção para as questões ligadas à tolerância, à cultura, aos valores sociais e o respeito à diversidade, afirma a professora. “Essa discussão é crucial num momento em que aparecem correntes contrárias à discussão desses valores nos espaços escolares. É preciso, sim, discutir e conversar”, afirma a pesquisadora.

Para a professora Maria Fernanda, a qualidade das relações entre os pais e desses com os seus filhos são importantes fatores associado ao bullying e à violência. Alguns indicadores, como o monitoramento  do tempo livre dos filhos, o envolvimento dos pais com seus filhos, o uso de práticas disciplinares violentas e também os  conflitos frequentes entre os pais constituem-se em fatores de risco, já reconhecidos na literatura internacional.

É importante, entretanto, considerar na análise desses fatores, os aspectos contextuais relacionados ao suporte dado aos pais, mães e cuidadores, na forma de políticas públicas.  "Os nossos resultados mostram que as práticas e estilos parentais positivos (monitoramento e envolvimento) estão associados a menores prevalências de envolvimento com as situações de violência e bullying, enquanto as práticas e estilos negativos (conflitos e disciplinas violentas) estão associados a maiores prevalências de envolvimento com as mesmas situações.

Hábitos sociais dos adolescentes, como atividades de lazer noturnas e características dos grupos de amigos, podem ser fatores de risco ou de proteção para o comportamento violento. Por exemplo, entre os adolescentes que participam de grupos de amigos transgressores, 37,9% foram vitimas de violência, contra 23% dos que não participavam desses grupos. Entre os adolescentes com alta frequência de lazer noturno 32,8% foram vítimas de bullying, contra 27,3% dos que tinham baixa frequência de lazer noturno.

Financiado pela British Academy/Newton Foundation e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o projeto iniciou em 2016, quando a Profa. Maria Fernanda foi Visiting Fellow no Violence Research Center, Institute of Criminology, da Universdade de Cambridge, na Grã-Bretanha.