Um ensaio clínico internacional com participação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) comprova que a adoção de um programa estruturado de hábitos saudáveis melhora de forma significativa o desempenho cerebral de idosos latino-americanos que apresentam risco de desenvolver declínio cognitivo.
Pela primeira vez, pesquisadores adaptaram e testaram com sucesso um programa de prevenção voltado especificamente para a realidade socioeconômica de 11 países da América Latina: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai.
O estudo
Recém-publicado na revista científica The Lancet, o estudo do programa LatAm-FINGERS acompanhou 1.065 participantes com idades entre 60 e 77 anos ao longo de dois anos. Todos os voluntários apresentavam fatores de risco para demência, como problemas de saúde cardiovascular, e desempenho cognitivo abaixo do esperado para a idade.
Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos:
- Intervenção sistemática no estilo de vida (ISEV): Participou de um programa estruturado que incluiu exercícios físicos acompanhados, orientações alimentares focadas na saúde cerebral, exercícios digitais de treino mental e monitoramento constante da saúde cardiovascular.
- Intervenção flexível no estilo de vida (IFEV): Recebeu recomendações e conselhos gerais de saúde de forma autônoma.
Principais descobertas
- Melhora cognitiva: Ao final de dois anos, o grupo que seguiu o programa estruturado (ISEV) apresentou uma melhora anual na performance cognitiva global 55% maior do que o grupo que recebeu apenas conselhos gerais.
- Benefícios amplos: Os ganhos mais expressivos foram registrados na memória episódica (capacidade de lembrar de fatos e eventos recentes), seguida pela função executiva (capacidade de planejamento e organização) e pela velocidade de processamento do cérebro.
- Segurança: O programa de atividades mostrou-se extremamente seguro, sem registro de efeitos colaterais graves relacionados às intervenções.
- Fórmula adaptável: O estudo provou que é viável aplicar essa intervenção multidomínio de maneira padronizada em diferentes realidades socioeconômicas e culturais da América Latina.
Programa de hábitos saudáveis
O sucesso do método LatAm-FINGERS está na combinação de múltiplos fatores que estimulam a "reserva cognitiva" do cérebro. Os participantes do grupo estruturado realizaram:
- Exercícios físicos: Atividades aeróbicas, de força, equilíbrio e coordenação de 4 a 5 vezes por semana.
- Dieta para o cérebro: Aconselhamento nutricional baseado na dieta MIND (rica em vegetais, grãos, peixes e azeite).
- Estimulação cognitiva: Sessões semanais de treinamento computadorizado de memória e atenção.
- Controle de saúde: Monitoramento periódico de pressão arterial, açúcar no sangue (glicose) e colesterol.
- Convivência social: Reuniões frequentes em grupo para fortalecer os laços sociais.
Descoberta histórica
Até então, a maioria dos grandes testes clínicos sobre a prevenção da demência havia sido realizada em países de alta renda, deixando populações da América Latina sub-representadas na ciência. "Os resultados do LatAm-FINGERS preenchem essa lacuna histórica. Eles oferecem aos governos e sistemas de saúde uma estratégia prática, sem medicamentos e de baixo custo para proteger a saúde cerebral de milhões de idosos em toda a região", destaca a Profa. Dra. Claudia Kimie Suemoto, professora associada da disciplina de Geriatria da FMUSP e uma das autoras do estudo.
Também assinam o estudo os professores Ricardo Nitrini, titular sênior de Neurologia, e Sônia Maria Dozzi Brucki, do Departamento de Neurologia da FMUSP.
O estudo completo está disponível na revista científica The Lancet.