Editorial da The Lancet Diabetes & Endocrinology destaca o potencial da diretriz da Endocrine Society para transformar o diagnóstico e o tratamento da condição
A diretriz da Endocrine Society para o diagnóstico e o tratamento da puberdade precoce central, liderada pela Profa. Dra. Ana Claudia Latronico, titular de Endocrinologia e Metabologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), ganhou projeção internacional neste início de agosto ao ser tema de um editorial da The Lancet Diabetes & Endocrinology, uma das principais revistas médicas do mundo. A análise ressalta o potencial do documento para promover uma abordagem mais precisa e individualizada da condição.
Publicada em junho no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, periódico oficial da Endocrine Society, a diretriz atualiza o consenso internacional publicado em 2009 e incorpora os avanços científicos mais recentes sobre o tema. A puberdade precoce central é caracterizada pelo início da puberdade antes dos oito anos nas meninas e dos nove anos nos meninos.
O trabalho reuniu especialistas de diversos países e é a primeira diretriz clínica da Endocrine Society sobre puberdade precoce central desenvolvida integralmente com a metodologia Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation (GRADE), considerada o padrão internacional para elaboração de recomendações baseadas em evidências.
No editorial intitulado Less can be more: the 2026 Endocrine Society Guideline for precision care in central precocious puberty, a endocrinologista pediátrica Sasha R. Howard, da Queen Mary University of London, afirma que a diretriz representa uma mudança de paradigma ao priorizar uma medicina de precisão baseada na avaliação individual de cada paciente.
O que muda com a nova diretriz
Entre as principais mudanças propostas pelo documento estão:
- Observação clínica antes da realização de exames em muitos casos, evitando intervenções desnecessárias.
- Dosagem basal do hormônio luteinizante (LH) como exame inicial, reduzindo a necessidade de testes de estímulo hormonal.
- Menor indicação de ressonância magnética cerebral e testes genéticos, reservando esses exames para situações específicas.
- Tratamento mais individualizado, com participação de médico, paciente e familiares na definição da melhor conduta terapêutica.
Ciência baseada em evidências
Para a Profa. Dra. Ana Claudia Latronico, a diretriz busca alinhar as decisões clínicas às melhores evidências científicas disponíveis, garantindo que cada paciente receba a conduta mais adequada ao seu caso.
"Nos últimos anos, acumulamos evidências de que nem todas as crianças com puberdade precoce central evoluem da mesma forma ou necessitam das mesmas intervenções. A diretriz propõe uma abordagem mais individualizada, baseada em evidências, permitindo indicar exames e tratamentos apenas para quem se beneficiará deles. Isso representa um avanço importante para a prática clínica e para a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes", explica a professora.
Além de atualizar conceitos consolidados há mais de 15 anos, o documento também reforça a importância da tomada de decisão compartilhada entre médicos, pacientes e familiares, considerando não apenas os aspectos clínicos, mas também os possíveis benefícios, riscos e impactos do tratamento em cada situação.
Reconhecimento internacional
Para a pesquisadora, o reconhecimento recebido pela diretriz reforça o papel da ciência produzida na FMUSP na construção de soluções para desafios globais da saúde.
"A repercussão desse trabalho na The Lancet Diabetes & Endocrinology demonstra que a ciência produzida na FMUSP está conectada aos principais desafios da saúde global. É um reconhecimento de que nossas pesquisas não apenas ampliam o conhecimento científico, mas também contribuem para a construção de diretrizes que orientam a prática médica e podem beneficiar pacientes em diferentes países. Esse é um exemplo de como a pesquisa desenvolvida em nossa instituição pode gerar conhecimento com impacto internacional e contribuir para enfrentar questões de saúde que ultrapassam fronteiras", afirma a Profa. Dra. Ana Claudia Latronico.
A diretriz está disponível no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.