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Estão evoluindo bem três pacientes que realizaram transplante de fígado por complicações causadas pela febre amarela no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP). Desse grupo, dois pacientes não resistiram.  A primeira transplantada saiu da UTI na semana passada, já caminha pelo hospital e deverá ter alta nesta semana.

Os transplantes em casos de hepatite fulminante na febre amarela são inéditos no mundo. Por essa razão, autorizar o procedimento não foi uma decisão fácil para o Dr. Luiz Carneiro D’Albuquerque, diretor da Divisão de Transplantes de Fígado e Órgãos do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e professor titular da disciplina de Transplantes de Fígado e Órgãos do Aparelho Digestivo da FMUSP. “Nas epidemias, a febre amarela tem 50% de mortalidade. De 10 a 15% tem uma evolução muito grave, do ponto de vista hepático, pela destruição do fígado.” Paralelamente, o médico explica que os doentes têm encefalite, pancreatite, hepatite fulminante e lesão renal grave, além do vírus circulando no organismo.

“No caso de doentes com hepatite fulminante, nós acreditávamos que tirando o fígado infectado (órgão que se destrói por concentrar a maior carga viral) e colocando outro saudável, essa carga viral diminuiria melhorando as condições do paciente”, explica do Dr. Carneiro. Mas a opinião não era consenso entre os médicos.

O transplante pode reverter a reprodução viral e impedir a progressão do edema cerebral, melhorando a progressão da encefalite. O problema, segundo o médico, era saber quando transplantar, definir qual o tempo certo. As urgências dos casos graves de febre amarela foram decisivas na decisão de realizar o primeiro transplante. “Nós ensaiávamos esse procedimento há muito tempo”, conta.

A decisão se mostrou acertada quando, após o primeiro transplante, a replicação viral desaparecer depois de três dias após o transplante. “Estamos começando a conhecer agora os dados, mas já sabemos que o tempo neurológico é que deve definir quando transplantar”, avalia.

O diretor de transplantes do HCFMUSP diz que a fase ainda é de aprendizagem. “Nós estamos aprendendo, estamos trocando experiências. ” A Unicamp, que já fez dois transplantes, foi a primeira convidada. Outras instituições, como ou sem experiência em transplante de fígado, estão sendo convidadas a participar. “Muitas já participaram, mas queremos é compartilhar. Ainda não estamos prontos para treinar equipes”, avalia o dr. Carneiro, reforçando que enquanto durar a epidemia a equipe do HC estará pronta para atender os casos necessários.