Bom para Tutor

 

Pecados mortais dos estudantes

1. Preguiça

Preguiça... S. Tomás de Aquino e os medievais chamar-lhe-iam «acédia», que é mais do que uma mera indolência física. É uma atitude de estar de costas voltadas para o mundo, é um apático enfraquecimento da vontade que impede de investir.


Trata-se de «dissipação do espírito», que se pode ligar à negligência, ao tédio e ao descuido.
Portanto, é mais do que mera aversão ao trabalho...
Mercê desta preguiça, desqualificam-se os problemas (e a procura de respostas ou de soluções, claro) - tanto se aplica ao pensar como ao sentir e ao agir.
É um «deixa para depois», que é sempre depois...
Encontra-se na «selva académica» em estudantes cujo traço principal é omissivo - o que mais se ressalta é a omissão: de acção, de pensamento, de iniciativa, de interesse, de investimento...
Daqui resulta um espreguiçamento ocasional e um vai-andando indolente.
Que se articula com uma diversidade considerável de posturas, desde o «qu'é que eu tenho de saber p'ó teste?» até «dá os "powerpoints"?», desde fazer «patchwork» em vez de trabalho de grupo até à procura (às vezes, surpreendente) de formas airosas de esforço mínimo...

2. Inveja

A inveja tem uma ligação ao «quero», mas num querer que é «do que é do outro», de viver o que o outro vive, ter o que o outro tem. É algo sombrio, que se procura esconder - a palavra de raíz é “invidia” que significa «olhar enviesado, de soslaio».


Basta o sucesso de alguém para a despertar - ora, isto pode ser gritante no meio académico...
É vê-la a a jorrar mas sem o toque de admiração sincera e/ou de estímulo que poderia levar o próprio a desenvolver-se!
O invejoso presta muito atenção ao que os outros fazem ou deixam de fazer - para falar mal de tudo e de todos e por todo e qualquer motivo.
Naturalmente, encontra sempre uma forma de depreciar, de desvalorizar.
E é dramático porque não há forma de agradar a um invejoso – a não ser apagando-se!
O impulso e o comportamento de quem inveja, é de querer retirar ou estragar o que é desejável - e, bem vistas as coisas, é do outro.
Entre estudantes, na relação com os professores, a inveja pode assumir traços de ser melífluo, insinuante, maldizente... pode aparecer ligada às pautas (e às «notas») assim como ao sucesso na tuna ou na associação.
É só estar atento... ou não?!

3. Indiferença

A indiferença fica à margem da preocupação com os outros e com o mundo.
Não se importa com as vozes que falam de crueldade, de fosso entre ricos e pobres, de poluição do planeta, de fome, de.... seja do que fôr. A indiferença alheia-se da participação e da responsabilização. Carece de expectativas, não quer saber delas e, por isso, coloca o hoje e o amanhã em risco.
Um estudante cair no pecado da indiferença, significa que não-se-importa com os outros, com o ambiente, com o mundo. É um pleno atentado contra a cidadania cívica, política, social.


Ademais, a indiferença gosta da cegueira e da passividade, da incapacidade persistente.
Ah, e de clientelas corporativas e burocráticas, da dureza de coração e da frieza, da insensibilidade.
No meio académico, a indiferença veste as roupagens do não-quero-saber, não-me-incomodem, não-te-estendas- na minha direcção. O agora é pouco valioso, o logo nem existe.
Não se trata de estoicismo - aqui, qualquer esforço tem o sentido de preservar a estabilidade amorfa.
Por isso o indiferente torna-se um ser estranho: tem cérebro e não pensa na direcção de fora-de-si, tem coração e não sente, tem alma e não ama. Dir-se-ia que o contrário do amor não é o ódio, como se pensa. É a indiferença.

4. Desonestidade

Des-honestidade, nega a honestidade.
O que é honesto, é virtuoso, sério, digno, conforme à lei moral, à honra.
Gosto de probidade, aqui - porque ser honesto é ser probo, ou seja, de carácter íntegro.
Precisaríamos de uma palavra para designar a virtude que rege as relações com a verdade.


Vou seguir na pista de André Comte-Sponville, e usar a boa-fé. Como facto, a boa fé é “a conformidade dos atos e das palavras com a vida interior, ou desta consigo mesma. Como virtude, é o amor ou o respeito à verdade”.
Este «amor à verdade» é a virtude filosófica por excelência – colocar a verdade acima do poder ou honra, do sistema... Escreve Sponville, que o filósofo “prefere saber-se mau a fingir-se bom, e olhar de frente o desamor, quando ele se produzir, ou seu próprio egoísmo, quando ele reinar (quase sempre!), a se persuadir falsamente de ser amante ou generoso.”
Também me parece que o «amor à verdade» é virtude intelectual e traço de investigador, de quem estuda no sentido de procurar os caminhos mais conformes (seja à ciência, à politica, à ética, entre outras).
Quem é desonesto, não está «de boa fé».
E por não o estar e por agir em não-conformidade com faz-me trazer a justiça para aqui, também, e recordar que (com Tomás de Aquino), se pode ser injusto por se ser transgressor da lei, o vulgo «infractor», em que o critério é a des-conformidade com a lei, ou por se agir contra a igualdade (ou querer mais bens ou mais dos bens ou querer menos ou menos parte dos males).
Quem é desonesto, atenta à verdade e à justiça, eis a minha tese.
Por inúmeras razões que se reflectem numa intenção-base: obter um resultado de sucesso que não lhe é devido.
E a «esperteza» (pois!) diz que resulta ser desonesto. Basta olhar em redor, os exemplos sociais, culturais e políticos (na condição de permanecerem incólumes). Por aqui, nos blogs, as queixas abundam.
E até parece que o conceito de honestidade intelectual se torna uma espécie de raridade atávica. Plagiar posts, agravado por nem sequer haver o cuidado de referenciar de onde vem. Trata-se, para usar uma palavra mais clara, de se apropriar de algo (texto, comentário, opinião) que não é seu, agindo como se fosse. Desonesta a apropriação, desonesta a re-exposição como seu. Roubo de base, para dizer cruamente.
Olhando o estudante, os «sítios» mais evidentes de desonestidade estão na produção de provas - e entendo aqui, a prova da aquisição de saberes e de competências, que se exibe tanto os exames como os trabalhos.
Os contornos eventuais (que não fiz nenhuma investigação aturada sobre o assunto) dos maiores focos de desonestidade intelectual parecem-me estar exactamente na área da demonstração do adquirido.
Diferenciaria levemente a cópia (copiar no teste) do plágio (reproduzir num trabalho). E diferenciaria entre revisão bibliográfica pura e construção de opinião com base na revisão.
Claro que inclui a utilização textual não referenciada (aquelas situações de que afirmo «caíram-lhe as aspas») usada extensamente e apropriada como se «fui eu quem pensou isto».
Tenho, da experiência vivida (que não é muita, reconheço) que os textos plagiados parecem «pasteurizados» ou «patchwork», uma «manta de retalhos», costurada com «copy-past». E nos meus casos identificados, foi «zero» no teste e negativa no trabalho, com uma conversa algo longa com o estudante encontrado em falta.
Não me parece poder existir a menor dúvida que a cópia e o plágio são desonestidade.
Um copia por outro. Um plagia de alguém. Este «Um» falta à verdade e à justiça. Mas julgo que é mais do que isso.
Diria que é espelho de outras possibilidades: do sentimento de incapacidade pessoal do estudante, da auto-mutilação das suas potencialidades, de um hábito que se enraíza e assume formas diversas no ciclo da vida pessoal...
Outro aspecto mesmo ao lado é a da existência de muitas formas e seduções para o plágio - Internet, exemplo paradigmático. E as variantes vão de reproduzir (copy-paste) textos encontrados em sites até sites que disponibilizam trabalhos académicos já prontinhos (eu mesma fiquei espantada com a quantidade de ofertas quando fiz busca com «trabalhos prontos») ou por encomenda. A ideia é simples: dois clicks, um trabalho....(acresce que há comentários de estudantes agradecidos com as classificações obtidas).
Há, naturalmente, outras formas de desonestidade activa e passiva do estudante.
Estas eram activas. Pactuar com, é passivo. E a permissividade custa menos esforço do que ajudar o Outro a desenvolver-se e a aprender.
E tanto me refiro ao colega estudante como ao professor.
É preciso cuidado com a inadimplência (palavra derivada de inadimplir, "não cumprir algo nos termos convencionados") quanto aos aspectos disciplinares, que a permissividade também alimenta a improbidade.
Questões que me ficam (apesar da extensão do texto):
Que ferramentas à disposição dos estudantes para combater a tentação? e dos professores?
Interrogaria se que quando os professores pedem trabalhos com temas vagos e sem necessidade de opinião/argumentos do estudante, não estão a promover indirectamente. Se quando pedem 4 ou 5 trabalhos por mês, com algum porte, não podem estar também a ajudar a «cair em tentação». Penso que o desconfiómetro é insuficiente - diria que é fundamental orientar os trabalhos, premiar o pensamento autónomo e criativo, supervisar a realização e punir os casos detectados de forma dissuasora.

5. Calúnia

Comecemos por definir calúnia.
Dizem os manuais e os eruditos que há três crimes contra a honra - a calúnia, a difamação e a injúria. Caluniar consiste em atribuir (há quem prefira imputar) falsamente a alguém a responsabilidade pela prática de algo, definido como crime. Difamar significa desacreditar, atribuindo a alguém algo ofensivo à sua (boa) reputação. Injuriar é ofender, verbalmente, por escrito ou fisicamente, a dignidade ou o decoro de outra pessoa (atribuindo-lhe uma qualidade negativa).
Portanto, caluniar reúne três elementos: que seja imputado um facto, que ele seja qualificado como crime e que exista falsidade na imputação. Note-se que se exige que o facto seja falso...
Quando foi proposta a calúnia, pensei nas afirmações levianas que são feitas pelos estudantes, e que, algumas vezes, configuram prática de um crime... mas que são falsas... Vão além da maledicência, do comezinho «corte e costura». Incorrem mesmo em calúnia.


Apetece comentar que, na generalidade, as pessoas têm de ser responsabilizadas pelo que afirmam. Em particular os que, como alguns estudantes, para ocultar ou desagravar o seu próprio comportamento, lançam pedras a outros e quaisquer telhados.

6. Inoperância

Trata-se da qualidade ou estado do que é in-operante. Logo, que tem in-capacidade de operar, não é efectivo, não produz - logo, associo à de co-operar, naturalmente.
Enquanto inoperantes, não estamos a falar da (presumível?) categoria dos “desacreditados”, os que podem ser identificados no tocante a alguma «marca» que se torna visivel quando expostos às interações sociais mais «normais» (leia-se, regulares) no meio estudantil.


Excluamos o estigma, o estereotipo. Excluamos, por agora, as trajectórias existenciais complicadas e as incapacidades exteriores à vontade.
Trata-se mesmo de não ser produtivo, nem eficiente.
Da negação do investimento, da finalidade de ou em realizar algo.
Pode ser décalage excessiva (entre os tempos de dever e os tempos de fazer, por não ser feito)...
Contudo, também me parece que pode ser visto de modo organizacional - sim, estou a pensar na inoperância ligada ao sistema de participação, as ausências ao Conselho Geral e a Conselho Pedagógico, o papel ocasionalmente inoperante das Associações.
Tenho para mim que a inoperância é parente da estagnação e, em certas variantes, decorrente de algum umbigocentrismo. Trata-se da qualidade ou estado do que é in-operante. Logo, que tem in-capacidade de operar, não é efectivo, não produz - logo, associo à de co-operar, naturalmente.
Enquanto inoperantes, não estamos a falar da (presumível?) categoria dos “desacreditados”, os que podem ser identificados no tocante a alguma «marca» que se torna visivel quando expostos às interações sociais mais «normais» (leia-se, regulares) no meio estudantil.
Excluamos o estigma, o estereotipo. Excluamos, por agora, as trajectórias existenciais complicadas e as incapacidades exteriores à vontade.
Trata-se mesmo de não ser produtivo, nem eficiente.
Da negação do investimento, da finalidade de ou em realizar algo.
Pode ser décalage excessiva (entre os tempos de dever e os tempos de fazer, por não ser feito)...
Contudo, também me parece que pode ser visto de modo organizacional - sim, estou a pensar na inoperância ligada ao sistema de participação, as ausências ao Conselho Geral e a Conselho Pedagógico, o papel ocasionalmente inoperante das Associações.
Tenho para mim que a inoperância é parente da estagnação e, em certas variantes, decorrente de algum umbigocentrismo.

7 - A procrastinação

À primeira vista, é uma palavra um tanto inhabitual.
Procrastinar é deixar para o dia de amanhã, adiar, protelar, demorar, deferir...
O termo procrastinação pode ter uma acepção finita ou infinita - finita é o adiamento para um amanhã determinado, infinita (a perder de vista) é um adiamento sem amanhã definido.
Procrastinar implica deixar que as tarefas de baixa prioridade antecipem as de alta prioridade - por exemplo, socializar com os colegas quando se tem um projecto para entregar esta semana, ver televisão ou jogar computador em vez de estudar, etc... O conceito de tarefa adiada abrange uma vasta amplitude de domínios.


Qualquer tipo de procrastinação envolve a decisão de adiar. Os resultados podem interferir com o sucesso académico e pessoal - aí, torna-se pecado (e entra nesta série...) para o estudante.
A procrastinação encontra-se ligada ao conceito físico de inércia – uma massa em repouso tende a permanecer em repouso. Como tal, são necessárias mais forças para iniciar a mudança do que para a manter, o que convida ao adiamento do início das tarefas. Por sua vez, este adiamento ou evitamento, ao proporcionar uma sensação de conforto temporário, reforça a própria procrastinação, o que torna mais difícil começar a agir no sentido inverso. Estamos, portanto, perante um ciclo de funcionamento que se alimenta a si próprio e que tende a perpetuar e a alastrar cada vez a mais áreas ou a assumir cada vez uma maior intensidade.
Alguns autores afirmam procrastinação biológica e psicológica (por exemplo, Jenny Maryasis, que referencio em baixo). E que esta última pode ser comportamental ou decisional.
Já o deixou o PJ, em comentário - "a primeira diz respeito a comportamentos específicos que, sendo adiados, acarretam consequências negativas para os indivíduos. Por exemplo, não entregar a declaração de IRS a tempo ou adiar a compra de presentes de Natal até à tarde de dia 24 de Dezembro. A segunda tem a ver o adiar de decisões e é de natureza mais cognitiva do que comportamental. Adia-se, por exemplo, o destino de férias e estas começam sem que se tenha qualquer plano. Curiosamente, constata-se que a procrastinação decisional se encontra associada a um padrão mais disfuncional de funcionamento psicológico por comparação com a procrastinação comportamental."
A questão é mesmo, se e quando torna o comportamento disfuncionante.
E tem impacto na auto-estima, na realização pessoal.
Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a sua vida.
Diria até que o tempo é distribuído entre as pessoas de forma mais democrática que muitos (quase todos) dos outros recursos de que dependemos - cada dia tem para cada um 24 horas.
Ainda assim, é um recurso altamente perecível. E que se pode aprender a gerir - até porque fazê-lo é administrar estrategicamente a própria vida.
Há aconselhamento na gestão do tempo e na organização do trabalho.
E um alerta particular, neste início de ano lectivo, à tentação de procrastinar, de preferir sistematicamente o ócio ao compromisso.

Há muitos livros, artigos e sites dedicados ao assunto
http://www.couns.uiuc.edu/Brochures/procras.htm
Procrastination and Task Avoidance: Theory, Research, and Treatment
Procrastination: Habit or Disorder? Jenny Maryasis

 

http://conversamos.blogspot.com/2005/09/pecados-mortais-dos-estudantes-7.html

Lucília Nunes, http://conversamos.blogspot.com

 

Viva Voz

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