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Iniciativa integra esforço da Faculdade, através da CBSS e da CCEx, para acolher estudantes, docentes e servidores negros

Ele nasceu livre. Mahommah Gardo Baquaqua veio ao mundo na importante cidade comercial de Djougou, na África, em meados dos anos 1820. Foi escravizado e enviado ao Brasil em um tumbeiro, desembarcando no norte de Pernambuco, em 1845. Trabalhando inicialmente para um padeiro, enfrentou condições tão degradantes que chegou a tentar o suicídio. Após ser vendido para um capitão de navio no Rio de Janeiro, aproveitou uma viagem comercial até Nova Iorque onde, incitado por abolicionistas locais, pulou da embarcação, lançando-se ao mar junto com um compatriota. Continuou sua luta ainda por mais alguns anos, dessa vez dentro dos tribunais, até retornar à sua condição original: de homem livre.

A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), através da Comissão de Benefícios (CBSS) e a Comissão de Cultura e Extensão Universitária (CCEx), traz ao seu reduto o espetáculo “Baquaqua: Documento Dramático Extraordinário”, com duas apresentações, nos dias 25 e 26 de maio, no Teatro da Faculdade. Produzido pela Cia do Pássaro, a peça se baseia na única autobiografia conhecida de um africano escravizado no Brasil, escrita em inglês por Baquaqua, após aprender o idioma frequentando o New York Central College. Datado de 1854, o texto só ganhou sua primeira tradução para o português um século e meio depois.

“Acho muito importante a apresentação de uma peça como essa na Faculdade, que traz a trajetória de um personagem negro e sua luta para construção da liberdade, e da dignidade”, diz o Prof. José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, Diretor do Núcleo de Ética e Direitos Humanos da FMUSP (NEDH). “A arte tem um poder que o discurso puramente racional não tem, tocando-nos para além do intelecto, em nossos afetos e sentimentos.” A mesma perspectiva é compartilhada pelo produtor da peça, Rafael Procópio, que espera dialogar com os "futuros profissionais da saúde” através do espetáculo. “Levar o debate e a reflexão a um ambiente acadêmico usando nosso teatro e todas as particularidades da linguagem teatral ao invés das já estabelecidas mesas de debate é também uma provocação a esse público”, diz o produtor.

A peça será realizada no Teatro da FMUSP, Av. Dr. Arnaldo, 455, São Paulo. A primeira data, dia 25 de março, será destinada apenas ao público interno da Faculdade, com inscrições através do link: https://bit.Ly/37w6hjF. Já a apresentação do dia 26 incluirá também o público externo, com inscrições pelo endereço: https://bit.ly/3JYgbYL. As fichas de inscrição ficarão disponíveis até o dia 23 de maio, às 22h.

Luta é atual e contínua

Por meio do emprego de políticas de ação afirmativa, a Universidade de São Paulo (USP) tem conseguido, aos poucos, alterar seu quadro de estudantes. Em 2018, quando a instituição passou a adotar cotas sociais e raciais, 13,7% das vagas para matrículas de cada unidade foram destinadas a candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas (PPI). Ampliando essa reserva progressivamente, em 2022, a universidade disponibilizou metade das vagas (50%) para alunos egressos do ensino público, incluindo nessa fatia o percentual de 39% para candidatos PPI, o que equivale a 18,5% do total.

No entanto, além do aumento das denúncias de fraude nas cotas raciais, nem sempre todos os cursos conseguem atingir as metas estabelecidas. E, uma vez matriculados, os estudantes passam a enfrentar o desafio de garantir sua permanência até a formatura. Para Danielle Rosa, mestranda da FMUSP e Diretora de Acolhimento do Núcleo Ayé, coletivo negro da Faculdade, ainda há muito chão a se percorrer. “Uma das nossas principais frentes de atuação tem a ver com a permanência estudantil, que envolve, principalmente, a concessão de bolsas aos alunos.” Ela também relata problemas de acolhimento aos estudantes negros, que enfrentam falta de identificação com o Corpo Docente e a Diretoria, além de, por vezes, terem suas presenças questionadas em determinados ambientes.

Outro quadro fundamental da Universidade, os servidores também continuam longe de atingir níveis de equidade. Segundo os dados mais recentes do Portal da Transparência da USP (com informações consolidadas de maio de 2022), dos 417 servidores técnico-administrativos ativos da FMUSP, apenas 73 se autodeclaram pretos ou pardos. Essa quantidade representa 17,5% do total, pouco mais que os 16,9% da USP como todo. Para Tiago Germano, Auxiliar Técnico da Comissão de Resíduos da FMUSP, os números “seguem a mesma tendência já conhecida: quanto mais altos os cargos, menor a diversidade.” Segundo ele, a Faculdade poderia investir mais na especialização dos funcionários já contratados, para que eles desenvolvam maiores chances de ascender de cargo.

“Temos tido progressos importantes nos últimos anos, mas ainda há muito o que se fazer”, diz o Diretor do NEDH, Prof. José Ricardo Ayres. Sobre os estudantes negros, ele reconhece que muitos possuem conjunturas sociais vulneráveis. “Eles demandam, muitas vezes, apoio financeiro para poder concluir os cursos que a FMUSP oferece.” Nesse sentido, foi criado, em 2017, o Núcleo de Apoio ao Estudante (NAE), que, apesar de não realizar um recorte racial, é responsável por promover ações de apoio institucional aos estudantes com necessidades socioeconômicas, incluindo a avaliação e o monitoramento dos benefícios disponíveis. O Núcleo integra serviços já existentes, como o Grupo de Assistência Psicológica (GRAPAL), Serviço de Suporte Pedagógico e Serviço Social. Docentes e colaboradores também contam com o apoio de iniciativas como o Projeto Acolher, que realiza treinamentos e oficinas on line para incentivar o bem-estar mental da comunidade interna da Faculdade.

“Mas não é apenas isso”, diz o Prof. Ayres. “Queremos que a integração seja total, que a diversidade de experiência e de visão de mundo seja valorizada e incorporada efetivamente aos saberes mais tradicionais.” Ele ressalta que, embora os estudantes tenham, historicamente, uma perspectiva mais reivindicatória, as pautas raciais sempre estiveram inseridas por todos os integrantes negros da Faculdade de Medicina. “Estamos fazendo um grande esforço, em parceria com a Comissão de Graduação, com a representação dos funcionários no Núcleo de Ética e Direitos Humanos e com a Direção da Faculdade. Estou bastante otimista que continuaremos a dar passos importantes nesse sentido.”

Foto: Felipe Stucchi