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Adoecer de SARS-COV2 é uma experiência difícil que se torna angustiante quando da internação hospitalar. Não bastasse o acometimento físico, a insegurança e o medo, a doença ainda determina a separação do paciente e seus familiares e pessoas queridas. Desde o início da pandemia, os hospitais suspenderam as visitas aos pacientes como medida de proteção. Ainda que pudessem usar seus celulares para contato com as famílias, para muitos pacientes idosos ou em situação mais frágil, e com dificuldade de utilizar seus equipamentos, a internação trouxe solidão e sentimento de desamparo. As famílias, por sua vez, mesmo recebendo boletins médicos diários, se ressentiam de não poder ver a pessoa internada.

Preocupados com esses aspectos do cuidado humanizado, o Núcleo de Humanização e o Núcleo de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) desenvolveram um projeto de visitas virtuais que aproxima pacientes e seus familiares por meio de um encontro à distância. A ideia, relativamente simples, exigiu, no entanto, uma operação logística detalhada e cuidadosa. A visita virtual segue um protocolo rígido de medidas de segurança e de controle de infecção, assim como protocolos de comunicação especialmente criados para a interação de pacientes e familiares mediados por uma pessoa do hospital. Uma vez que as equipes de saúde do hospital já se encontravam muito sobrecarregadas com outras tarefas assistenciais, para formar o time da visita virtual, o Núcleo de Humanização, primeiramente, convidou alunos e ex-alunos da Faculdade de Medicina da USP para trabalhar como voluntários no projeto. 

“A primeira reunião com a equipe de voluntários foi surpreendente. Foi uma alegria rever minhas ex-alunas, agora médicas formadas. Melhor ainda foi ouvi-las dizer que ficaram animadas quando souberam que a proposta de trabalho voluntário era para um projeto de humanização, já que trabalhavam em áreas clínicas de outros hospitais e estavam sentindo falta justamente dessa abordagem humanizadora do cuidado”, afirma a Profa. Izabel Cristina Rios, do Departamento de Medicina Legal, Ética Médica e Medicina Social e do Trabalho da FMUSP e Coordenadora do Núcleo de Humanização HCFMUSP.

Formou-se um time de 28 alunos e ex-alunos da FMUSP que recebeu treinamento para atuar em ambiente hospitalar de tratamento de pessoas com Covid-19, e para intermediar o contato entre pacientes e familiares, propiciando uma boa comunicação entre eles. Hoje, as visitas ocorrem à tarde, em nove enfermarias e na Unidade de Emergência Referenciada do Instituto Central do HCFMUSP, instituto adaptado para atender somente casos de Covid-19. O trabalho do time de voluntários começa na sala da humanização, com a equipe do Núcleo de Humanização que coordena localmente o projeto e dá suporte presencial aos voluntários todos os dias. Em um mês de trabalho, realizou-se 234 visitas virtuais. 

Nas visitas, pacientes e familiares conversam sobre suas preocupações e expressam sentimentos e afetos. “Vários voluntários testemunharam encontros emocionantes, divertidos, inusitados ou mesmo tristes. Encontros humanos, simplesmente humanos, e por isso cheios de significado”, diz a Profa. Izabel Rios. A visita virtual é uma ação de humanização que está sendo bastante apreciada pelos pacientes e seus familiares, além da equipe e time de voluntários, "que referem satisfação com o trabalho que realizam. Talvez porque a natureza de um trabalho como esse seja em si mesma gratificante, mas talvez também porque estamos falando de pessoas verdadeiramente generosas, que demonstraram ter coragem e altruísmo, qualidades essenciais daqueles que são ou querem um dia vir a ser médicos de verdade", afirma a Profa. Izabel Rios.