Dicas de leitura: A História da Medicina sob novas perspectivas #03

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Em nossa dica de leitura desta semana apresentamos dois livros lançados recentemente que abordam, sob diferentes perspectivas metodológicas, aspectos importantes da história da Psiquiatria e da Saúde Mental e de suas interfaces políticas, sociais e epistemológicas no Brasil.

O livro “Uma sala tranquila: neurolépticos para uma biopolítica da indiferença”, de Sandra Caponi, foi lançado em 2019 pela Editora Liber Ars. A obra analisa as bases epistemológicas que sustentaram a chamada “revolução psicofarmacológica”, atribuída à época, ao lançamento do primeiro antipsicótico, a Clorpromazina, em 1952. Para tanto, autora parte da problemática atual da psiquiatrização da infância para resgatar este contexto desde seus primórdios. Para delinear essa história, o livro explora as especificidades do saber psiquiátrico no que diz respeito à definição de diagnósticos, à efetividade das terapêuticas prescritas e à capacidade para definir estratégias de prevenção. Assim, observando as continuidades e as rupturas que ocorreram em relação às terapêuticas utilizadas antes e depois do uso dos neurolépticos, a autora busca evidenciar a fragilidade da tese que defende a ideia de uma revolução ou de uma ruptura epistemológica no campo da psiquiatria biológica, vigente a partir da descoberta da Clorpromazina.

A nossa outra dica é o livro “Psiquiatria e política: o jaleco, a farda e o paletó de Antonio Carlos Pacheco e Silva”, de Gustavo Tarelow, publicado em 2020 pela Editora Fiocruz. A obra apresenta um estudo biográfico de Antonio Carlos Pacheco e Silva levando em consideração as muitas contradições, tensões e singularidades do médico, militar e político, que também foi professor de Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina da USP e da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP. O livro revela que Pacheco e Silva acumulou, para além dos espaços acadêmicos, importantes cargos políticos e empresariais, tendo participado ativamente de movimentos conservadores e eugenistas, além de ter tido papel central na fundação do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, ter sido Diretor da Federação Mundial para a Saúde Mental e do Hospital do Juquery. O autor analisa, também, como o psiquiatra esteve diretamente envolvido em todo o processo que levou o português António Egas Moniz a receber o Prêmio Nobel de Medicina, em 1949, além de sua intensa atuação em diferentes partidos e momentos do campo político nacional. 

Obras:

CAPONI, Sandra. Uma sala tranquila: neurolépticos para uma biopolítica da indiferença. São Paulo: Liber Ars, 2019.

TARELOW, Gustavo Querodia. Psiquiatria e política: o jaleco, a farda e o paletó de Antonio Carlos Pacheco e Silva. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2020.